Munué Nenen - Poeta Popular das Alagoas. Poema publicado em 05.09.1945 no jornal Carioca A Manhã.

Manuel Nenen, cantador Alagoano

Os cantadores não pecam pela modéstia. Não acreditando muito na justiça humana, fazem-se justiça com as próprias mãos – ou com a própria boca – dizendo de si mesmos as coisas mais agradáveis. Veja-se como faz o seu próprio retrato, o grande poeta popular Manuel Nem das Alagoas. Fala também de colegas, porém todos mortos; elogio a vivo, concorrente, nada.

Este é o manué nenen,/força e magnetismo,/caldeira de munta força/movendo o seu maquinismo,/ouro que nunca mareia,/do tempo do carrancismo.

Este é manué nenen,/é o cantado falado/naturá das Alagoa,/é aço, é ferro, é machado,/ trovão do mês de janeiro,/navio encouraçado.

Meus senhores, me descurpem/este meu idealismo:/sou um poeta matuto,/cheio de anarfabetismo,/mas sou qui nem padre véio/pregando o seu catecismo.

Repente em minha cabeça,/quando chega, é mais de cem;/minha boca não despacha/o que no juízo vem;/dá pra enchê quatro casa,/dá pra carrega dois trem.

Eu me desmancho em repentes/nos braços desta viola,/porque pra cantá corcheia/tenho aula e tenho escola;/nas vista de todo mundo/o Nenen se desenrola.

Este é o Manué Nenen,/diamante, pedra fina;/eu canto desde menino,/porque está é minha sina:/estou cumprindo um decreto/da Providência Divina.

Minha viola hoje está/fazendo figura feia;/está qui nem apragata/quando papoca as correia,/na hora do meio-dia,/dentro dum banco de areia.

A viola não me ajuda,/está com munta ingrizia,/está só desafinando,/perco o som da cantoria;/ a viola tá dum jeito/que só jumento ao meio-dia.../eu vou fala nos poeta/que comigo tem cantado./Mas o primeiro de todos/era um homi ilustrado,/o cantadô de Alagoas/- era Reimundo Pelado.

Grande foi o Catingueira,/Romano tinha sistema,/Serrador, onde cantava/era mesmo que um cinema;/grande também foi Pelado,/que morreu no Gurganema.

Morreu Severino Pinto,/morreu Reimundo Pelado,/morreu Bernardo Nogueira,/o Serrador é finado,/os poeta tão morrendo/eu já tô desconfiado.

Morreu o Zé Duda véio,/homi de um cantá profundo,/os poeta tão morrendo,/e eu sei que tamém me afundo;/mas se eu morrê tenho gosto/de ir cantá n'outro mundo...


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